sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Filarmónica da Ribeirinha precisa de mais músicos

Sociedade Filarmónica Recreio Musical Ribeirinhense completou 85 anos

A 15 de Agosto de 1924 era fundada a Sociedade Filarmónica Recreio Musical Ribeirinhense, por um grupo de 15 amadores, dos quais se destaca José Furtado Carlos, presidente da primeira Direcção, e Manuel José Berquó Avelar, seu primeiro regente.

De então a esta parte, a Filarmónica da Ribeirinha atravessou tempos de prosperidade, mas também de grandes dificuldades, tendo mesmo encerrado a sua actividade durante algum tempo.

Em 2003, no entanto, voltou à música. Hoje, após completar 85 anos de idade, quer continuar a sua actividade, apesar das dificuldades. Destas, a principal é, sem dúvida, angariar músicos.

Miguel Rodrigues, maestro da Recreio Musical Ribeirinhense desde que esta retomou a sua actividade, recorda esse renascer: “a reabertura da banda deveu-se ao grupo Margens da Ribeirinha, que tinha elementos que faziam parte da filarmónica e acharam por bem tentar dar algum alento para que ela reabrisse. Conseguiu-se uma direcção que aceitou reiniciar as actividades da filarmónica”, lembra.

Ressurgida das cinzas, a filarmónica começou por fazer apenas procissões, até que, passado algum tempo, foi reunindo condições para actuar em concertos, e abraçar toda a actividade normal de uma filarmónica.

Hoje conta com 22 elementos, número que, para o seu maestro, é manifestamente escasso. “Se perdermos dois ou três elementos corremos sérios riscos”, confessa, com alguma apreensão. Miguel reconhece que é muito difícil angariar músicos, principalmente na própria freguesia. “Os ribeirinhenses ainda não olham para a filarmónica como sendo algo de valioso na freguesia”, lamenta, referindo que a banda está a encetar esforços para contrariar essa tendência: “tentamos, aos poucos, sensibilizar as pessoas para Filarmónica”, explica. Nesse sentido, todos os anos a Recreio Musical Ribeirinhense leva a cabo uma escola de música, aberta a todos quantos queiram aprender a arte. São essencialmente os jovens que procuram a escola, no entanto nem sempre têm consciência de que aprender um instrumento significa também algum trabalho árduo, o que leva a que muitos se desmotivem.

Durante o Inverno, quando há menos arraiais e procissões, a filarmónica ensaia duas vezes por semana, sendo que, quando chega a época de maior actividade, os ensaios diminuem.

Contrariamente ao que acontecia há alguns anos, quando as filarmónicas eram extremamente procuradas, agora são elas que vão contactar com as pessoas para angariar músicos, o que nem sempre é fácil.

Miguel Rodrigues lembra que a Filarmónica é também um local de convívio, e é igualmente nessa realidade que se baseia na angariação de novos elementos.

Como acontece com as colectividades desta natureza, os recursos financeiros são sempre escassos. Há cerca de três anos, a Recreio Musical Ribeirinhense vestiu-se de novas fardas, tendo sido necessário para tal recorrer a um subsídio.

Mais caros que as fardas são os próprios instrumentos, no entanto, neste momento, o instrumental da banda é o necessário. Miguel explica que, caso a banda cresça, como é desejável, terão de ser adquiridos novos instrumentos, e de vez em quando é necessário renovar os existentes. Para acções deste tipo, muito dispendiosas, o maestro mostra-se satisfeito por poder contar com o apoio da Junta de Freguesia que ainda recentemente comportou os custos de uma nova trompa.

No ano passado a Filarmónica deslocou-se ao Corvo, no mês de Agosto. Esta foi a sua primeira saída, sendo que, segundo nos explicou Miguel, apenas tinha ido ao Pico, há já muitos anos. Apesar de serem muito gratificantes, estas deslocações são muito dispendiosas, e não se fazem sem apoios. Para além do apoio do INATEL e de alguns privados, a Recreio Musical Ribeirinhense não contou com mais nenhuma ajuda na sua deslocação ao Corvo. Apesar de ter batido à porta da Câmara Municipal da Horta, da Assembleia Legislativa Regional e de várias Secretarias Regionais, foi-lhe negado qualquer apoio por parte dessas instituições.

Miguel Rodrigues lamenta também não haver união entre todas as Filarmónicas, em prol da arte musical. O maestro lamenta que as bandas tentem aliciar músicos de outras filarmónicas, situação com a qual a banda que orienta, pelas suas dificuldades e pelo escasso número de músicos que possui, sofre bastante. Miguel apela para que, ao invés destas divisões, as bandas procurem a unidade, e juntas trabalhem em conjunto para dignificar a arte.

Genuíno Madruga

A saga do pescador


A 25 de Agosto de 2007 o velejador Genuíno Madruga partia das Lajes do Pico, sozinho, a bordo do seu Hemingway, com um objectivo pela frente: fazer a sua segunda viagem de volta ao mundo, desta feita propondo-se fazer algo que nenhum português antes havia feito: passar o Cabo Horn, no sul do Chile, navegando do Atlântico para o Pacífico.

Como diz o poeta – e bem a propósito, já que falava das conquistas marítimas dos portugueses - “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”, e bastou o sonho para a conquista da realidade, com Genuíno a passar o Cabo Horn no dia 24 de Janeiro de 2008. A comunicação social chamou-lhe “herói do mar”, e foi assim que se sentiu.

No entanto, desta viagem, que terminou nas Lajes, a 6 de Junho passado, ficam também outras boas recordações, como a passagem por Timor e pela Argentina, e ainda lembranças mais negras, como o mau bocado que passou ao largo do Brasil, e que custou ao Hemingway, seu velho companheiro, o mastro.

Agora, as aventuras de volta ao mundo em solitário vão ficar para trás, garante, mas não sem antes serem perpetuadas em algo mais fugaz que as memórias, já que pescador está a preparar um livro sobre esta sua última façanha.

Em entrevista, Genuíno Madruga falou sobre a sua viagem, e sobre os planos para o futuro.


Por que razão quis fazer uma segunda viagem?

Vem na sequência da primeira. Além disso, conheci o primeiro homem que passou o Cabo Horn em solitário navegando do Atlântico para o Pacífico, Marcel Bardiaux. Conheci-o aqui na Horta, e fiquei sempre com as conversas que tivemos na memória, e fiquei com a ideia de que, se ele tinha conseguido passar ali, porque é que eu não havia de passar? Só precisava de um barco em condições. Organizei o barco, melhorando sobretudo a segurança, e no dia 25 de Agosto de 2007 saí do Pico em direcção ao Cabo Horn.

O que me moveu foi fundamentalmente o facto de não me sentir inferior a quem quer que seja. Se os outros conseguem eu, se tiver as mesmas condições, também consigo.


Mas passou alguns momentos complicados nesta viagem… Em quais se sentiu mais receoso?

Foi aquela zona ao passar o Cabo Horn, até Puerto Monte, no Chile. É a zona mais complicada de todas, e felizmente por lá tudo correu bem, porque qualquer problema ali poderia ter sido muito complicado. Depois, quando julgava que estava a chegar a casa, duas mil milhas depois de sair do Brasil, fiquei outra vez sem mastro. Em minutos. Foi uma situação muito complicada.


Como foi? Lembra-se bem desse dia?

Lembro-me de todos os segundos. É difícil de descrever o que se passou, mas posso dizer-lhe que, se há Inferno, creio que já passei por lá. Ainda por cima a situação ocorreu de noite, por isso apanhou-me ainda mais de surpresa. Estou a falar de ventos fortíssimos, com rajadas a muito mais de 100km/h, e chuva muito grossa, relâmpagos por cima da cabeça… Tudo isto numa questão de minutos.


Por algum momento pensou que não sairia vivo dessa situação?

Sempre pensei que os meus conhecimentos seriam suficientes para passar aquela situação. Sempre pensei que aquilo que aprendi durante a minha vida, no mar, na pesca, seria o suficiente para ultrapassar situações como aquela. Mas é preciso muito cuidado e cabeça fria, sobretudo. Às vezes um simples erro é a morte do artista. Fiz aquilo que era possível com as condições que havia. Depois cheguei aqui com oito dias de atraso em relação à data prevista, mas cheguei, e isso é que é importante.


Ao tornar-se o primeiro português a dobrar o Cabo Horn em solitário do Atlântico para o Pacífico, chamaram-lhe “herói do mar”. Foi assim que se sentiu?

Creio que, não só a passagem do Cabo Horn, mas toda esta segunda viagem, foi importante não apenas para mim mas para todos os que a acompanharam e que, na realidade, estiveram a navegar comigo pelo mundo. Cada vez me apercebo mais de que assim foi, pelas conversas que vou tendo com as pessoas. Existiu a consciência de que estava a fazer qualquer coisa que poucos fizeram. A nível mundial, sou a décima pessoa a passar ali em solitário, e o primeiro português, e tenho a certeza que muitos dos navegadores que afundaram ali naquelas águas também eram bons marinheiros, senão não se tinham aventurado até àquelas paragens, mas não conseguiram passar. Ali, qualquer manobra mal feita, qualquer erro, era fatal. Era um cenário muito complicado, com correntes muito fortes. Quando ia passando por ali, e mesmo depois, apercebi-me de que talvez aquilo que estava a fazer tinha uma importância maior do que o que estava a pensar. Através da Internet, fui seguido por milhões de pessoas, recebi e continuo a receber mensagens de todo o mundo, desde a Austrália à Noruega, aos Estados Unidos… Na Argentina foi recebido pelas mais altas individualidades.


Foi um verdadeiro embaixador dos Açores?

Penso que sim, principalmente junto dos emigrantes, mas não só. Creio que as pessoas reconheceram este feito, principalmente aqueles que conhecem o mar, e tem consciência da dificuldade desta viagem.


Para além dos momentos difíceis, devem ter ficado na sua memória outros momentos inesquecíveis, não pelo perigo e dificuldade, mas por boas razões…

Sim, e eu prefiro falar desses. Destaco o acolhimento que tive em Buenos Aires, na Argentina, pelos nossos emigrantes; a chegada a Timor, onde fui recebido de forma triunfal…


Até porque foi o primeiro português a chegar em solitário a Timor, desde que é uma nação independente…

Exactamente, e isso foi muito marcante nesta viagem. O Dr. José Ramos Horta teve a amabilidade de me receber no seu gabinete e depois veio a bordo do Hemingway. E ofereceu-me um presente muito especial, que guardo com todo o cuidado, e ainda não sei bem que destino lhe hei-de dar: trata-se de um terço, que tinha recebido da Irmã Lúcia. É um presente carregado de simbolismo, e é uma prova de como a minha passagem por Timor foi extraordinária.


A pirataria, na ordem do dia actualmente, também foi uma preocupação da sua equipa, até porque o Genuíno navegou em águas conhecidas por apresentarem esse perigo. Que precauções foram tomadas?

Sempre houve zonas complicadas em relação à pirataria, como é o caso do Mar da China, da Indonésia, do Golfo da Guiné, entre outros. Quanto a cuidados, tento evitar o mais possível essas zonas. Quanto tenho inevitavelmente de por lá passar tomo precauções. Nesta viagem eu não dava a minha posição correcta, quando dava uma posição já a tinha passado por uma determinada margem, e o meu grupo de apoio tinha conhecimento dessa margem, daí que eles soubessem sempre onde eu estava.


Como era o seu dia-a-dia a bordo?

A bordo não há dias normais. Em sítios de muita navegação e junto à costa era muito complicado dormir, porque a segurança tem de estar acima de tudo, até do sono e da fome. Às vezes era necessário ficar uns dias sem dormir, e come-se só quando é possível e aquilo que é possível. Às vezes preferia sair um ou dois dias da rota, e ir para mar aberto, onde há mais segurança, para poder descansar.

Quando está bom tempo dá para cozinhar, e eu ia pescando. Usava sempre duas linhas de corrico, apanhava alguns peixes, quando podia arriar um aparelho às vezes apanhava um peixe de fundo. É que fazia o meu pão, fazia sopa… Em relação à água, tinha um dessalizador a bordo, que garantia sempre água suficiente para a minha alimentação e higiene.

Não nos podemos esquecer que, numa viagem de solitário, não posso ser apenas velejador. Tive de ser também cozinheiro, electricista, mecânico…Tive de aprender também a trabalhar com o computador, muito importante na comunicação com o mundo.


E quando atracava num porto, quais eram as suas preocupações?

A primeira era colocar o barco num local seguro. Depois, tratar da documentação necessária junto das autoridades, quer a minha quer a do barco. Por vezes era preciso também diligenciar alguma pequena reparação, o que eu fazia de imediato, pois se por acaso fosse preciso sair com alguma urgência tinha a certeza que o barco estaria pronto.


Sentia preocupação em conhecer os lugares, as culturas e as pessoas dos sítios por onde passava?

Sim, procurei sempre esse contacto, e também falei muito dos Açores nos sítios por onde passei. Uma das minhas preocupações foi também tentar saber até onde tinham chegado os açorianos; procurar gente dos Açores em todos os sítios por onde passei. Encontrei-os no Uruguai, no Brasil, mas também em outros locais. Por exemplo, na Samoa Ocidental encontrei a família Silva, descendentes de açorianos, gente que deverá ter chegado ali na baleação.


Ouvia música a bordo?

Sem dúvida, e uma das preocupações que tive foi a de recolher a música tradicional dos sítios por onde ia passando, mas gosto muito da nossa música, das nossas filarmónicas e dos nossos grupos folclóricos.

O único cd que levei comigo foi o da Sociedade Filarmónica Unânime Praiense, que gostava muito de ouvir de vez em quando.

Na minha chegada, tinha muita vontade que estivessem presentes filarmónicas, como aconteceu, pois acho que era também o momento ideal para homenagear as nossas bandas. Isto que temos aqui não existe em mais lugar nenhum do mundo. Tudo o que se possa fazer e dizer no sentido de engrandecer o trabalho que é feito por estes músicos deve fazer-se e dizer-se. Como referi em muitos dos sítios por onde passei, nos Açores não há festa sem filarmónica, e não há nenhuma família açoriana que não tenha pelo menos um elemento a tocar numa filarmónica.


Quando se deparou com a recepção que teve no Pico, o que é que sentiu?

Não se consegue descrever. Penso que mostrou que esta viagem disse muito a muita gente. Muitos viajaram comigo pelo mundo fora, como já disse, e o excepcional programa de rádio feito aos sábados a partir da Antena 9 foi fantástico.


Quando chegou confessou-me que estava cheio de vontade de ir pescar no Guernica, o seu barco de pesca. Já foi?

Já fui, e já que falamos de pescas, deixe-me dizer-lhe que nestes dois anos a situação do sector piorou, segundo o que me apercebi. Cada vez há menos peixe, os preços em lota não acompanham o aumento dos custos… Creio que tem de haver mais algum cuidado com as pescas nos Açores porque podemos correr o risco de haver barcos e não haver peixe.


Nestes últimos meses tem estado muito ocupado. O que tem feito desde que chegou?

Muitas coisas, sobretudo para reorganizar a minha vida, em terra e no mar. O Hemingway está varado e a sofrer reparações, precisa de um mastro novo e de uma série de equipamentos.

Estou a escrever um livro, o que me tem tomado algum tempo. Este livro vai tratar desta segunda viagem, referindo também alguns aspectos da primeira. Esta ideia já tem muitos anos, e eu já tinha algumas coisas escritas. Entretanto, também fui escrevendo na viagem. O lançamento depende agora da editora, o meu trabalho está quase concluído.


Podemos esperar uma terceira viagem de circum-navegação em solitário?

Mais viagens destas não. Devemos ter consciência de que tudo na vida tem o tempo certo. Creio que já fiz aquilo que tinha que fazer nessa área. Posso vir a fazer algumas viagens mais pequenas apenas.


Então o que é que vai fazer no futuro?

Vou pescar!


O Genuíno já passou por muitos sítios… Diria que a Horta é a cidade mais marítima que já conheceu?

A Horta é, de facto, muito particular nesse aspecto. Não há um Peter noutras cidades, e não é por acaso que isso acontece. Claro que a baía e as condições geográficas são muito importantes para essa condição marítima desta cidade, mas a Horta não é só o porto; é também as pessoas. Sobretudo a convivência e a forma acolhedora com que os faialenses receberam os que por aqui passaram no passado fizeram com que a Horta tenha a dimensão que tem hoje a nível mundial. O nosso porto e marina são conhecidos por todo o mundo. Quando se fala na Horta na Austrália, muitas pessoas sabem onde fica.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Museu dos Cabos Submarinos do Faial caminha para a realidade


Em Agosto de 1893 era instalado na baía da Horta o primeiro cabo telegráfico submarino, da inglesa Telegraph Construction and Maintenance Company. Esta era, então, a forma mais moderna de comunicar com o mundo, e este acontecimento foi o ponto de partida para um período dourado de cerca de 70 anos, em que a Horta foi o maior centro de comunicações de cabos submarinos do planeta. Na cidade instalaram-se companhias inglesas, americanas e alemãs, que vieram empurrar a economia da ilha, ao mesmo tempo que influenciavam a sua sociedade de tal maneira que ainda hoje se nota essa influência. Agora, 60 anos após a extinção das companhias no Faial, um grupo de faialenses, antigos funcionários das mesmas, está a proceder à identificação do espólio que ficou dessa presença na ilha. O objectivo é perceber exactamente a dimensão e a relevância desse espólio, de modo a, eventualmente, poder vir a nascer na Horta um Museu dos Cabos Submarinos do Faial, que assegure para a posteridade a memória deste período de referência da história da ilha e da Região.


Carlos Silveira é um dos ex-funcionários envolvidos neste processo. Dos cinco anos em que trabalhou na companhia americana, guarda as melhores lembranças: “fiquei com gratas recordações, e tenho memórias que muito me satisfazem em relação aos anos que lá trabalhei”, frisa, destacando o grande impacto sócio-económico da presença dos cabos submarinos no Faial. Carlos Silveira lembra que muitos dos empregados estrangeiros casaram com mulheres faialenses, sendo que “ainda há muitos descendentes desses casais na Horta”. “Economicamente, este grupo de estrangeiros introduziu novos hábitos na ilha, e trouxe novas exigências, nomeadamente no que diz respeito à alimentação, impondo que as mercearias se ajustassem a esta realidade”. Também os hábitos de vida dos estrangeiros influenciaram a sociedade faialense, com destaque por exemplo para a influência no aparecimento do futebol, que se popularizou no Faial, antes das outras ilhas do arquipélago. “A própria atitude dos faialenses difere um bocado dos terceirenses e dos micaelenses, e penso que isso será influência desse contacto próximo com outras culturas”, acrescenta.

Para Carlos Silveira, não existir algo que recorde este período da história do Faial seria “uma falta grave”, por isso defende que é necessário criar condições para a instalação de um Museu dos Cabos Submarinos na ilha.

Também José Duarte da Silveira, actualmente cônsul português em Porto Rico, para onde os cabos submarinos o levaram há quase meio século, vê como óbvia a importância desse Museu para o Faial. O antigo técnico lembra o impacto que a presença das companhias, situadas ao redor da rua Cônsul Dabney, teve o quotidiano dos faialenses, com um número muito considerável de jovens a ingressar os seus quadros, tal como aconteceu com ele próprio, quando tinha apenas 16 anos. “Estamos a falar de parte da história dos Açores, porque a Horta foi durante 70 anos o maior centro de comunicações de cabos submarinos do mundo. As várias companhias tinham cabos a terminar em vários pontos, mas todos esses cabos passavam por aqui. Tivemos uma concentração de 21 cabos, penso eu”, recorda.


Espólio do Museu da Horta alvo de identificação

Após o encerramento das companhias no Faial, em 1969, o Museu da Horta adquiriu algum do seu espólio, que se encontra actualmente guardado.

Carlos Silveira e José Duarte da Silveira, em conversa com antigos colegas, chegaram à conclusão de que é urgente identificar esse espólio, e esse trabalho só pode ser feito pelos ex-funcionários das companhias, muitos dos quais já faleceram.

Nesse sentido, e com o apoio da Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, o grupo de ex-funcionários está desde a passada semana a trabalhar no Museu da Horta, para identificar e inventariar as peças existentes.

José Duarte da Silveira mostra-se bastante satisfeito com a receptividade da equipa do Museu que tem trabalhado com os ex-funcionários, realçando a preciosa colaboração de Luís Menezes, director do Museu, Cláudia Castro, directora técnica e Fernando Pinto Jorge, restaurador. O antigo funcionário dos cabos submarinos ressalvou a importância de se fazer este trabalho nesta altura, para que aqueles que, como ele, estão “espalhados na diáspora” possam também participar. No resto do ano, este trabalho caberá aos ex-funcionários que vivem no Faial, sendo que José Duarte Silveira conta voltar no próximo Verão para ajudar a finalizar a tarefa.

Feito este trabalho de identificação das peças, é meio caminho andado para pôr de pé um Museu dos Cabos Submarinos do Faial No entanto, os dois ex-funcionários gostariam que este não se limitasse a mostrar os aparelhos utilizados então. “A nossa ambição vai para além disso; queremos um museu o mais vivo possível”, explica Carlos Silveira. José Duarte da Silveira pretende que possa ser mostrada a evolução das comunicações, desde os cabos submarinos até aos dias de hoje, caracterizados pelo imediatismo do telemóvel.

Quanto à eventual casa deste Museu, os ex-funcionários consideram que deveria ser num dos locais onde operavam as companhias. Um espaço no edifício da antiga Escola Básica Integrada, onde actualmente se encontra o Conservatório da Horta, “seria o melhor local”, segundo José Duarte da Silveira. “No entanto o mais importante agora é documentar tudo. Se não há espólio identificado não há museu”, acrescenta.


Sensibilizar a população

Carlos Silveira e José Duarte da Silveira acreditam que muitos dos familiares dos ex-funcionários já falecidos podem ter importantes contributos para este espólio que agora está a ser identificado. Com o objectivo de sensibilizar essas pessoas para a importância deste projecto, bem como de dar a conhecer à população faialense a importância que os tempos dos cabos submarinos tiveram para a ilha do Faial, a Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta promove na próxima segunda-feira, dia 10, pelas 21h00, na sociedade Amor da Pátria, um Colóquio sobre esta temática.

Neste evento, Carlos Silveira irá dar aos presentes uma visão sobre os tempos e memórias dos cabos submarinos, e José Duarte da Silveira apresentará as ideias e percursos para o Museu dos Cabos Submarinos do Faial.


FOTOS: SUSANA GARCIA

Autárquicas 2009


Renato Leal vai a todas


O candidato do PS à Assembleia Municipal da Horta é também candidato à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de fora da Europa


Depois de o diário local ter antecipado o nome de Renato Leal como candidato do PS à presidência da Assembleia Municipal, foi sem surpresas que decorreu o anúncio oficial da candidatura, ao final da manhã da passada quarta-feira.

Coube ao mandatário autárquico do PS, e ainda presidente da Assembleia Municipal, Jorge Gonçalves, apresentar Renato Leal como candidato às funções que ainda ocupa. O mandatário enalteceu as qualidades políticas e pessoais do candidato, e lembrou o seu percurso político.

Presidente da Câmara Municipal da Horta durante quase nove anos, deputado regional e deputado à Assembleia da República, cargo que actualmente desempenha, Renato Leal é, segundo Jorge Gonçalves, “conhecido de todos os faialenses”, e, por sua vez, também ele conhece bem os habitantes desta ilha.

Sobejamente conhecido pela sua eficácia na campanha, Renato Leal assume-se como um trunfo importante para o PS, e Jorge Gonçalves confirmou as elevadas expectativas socialistas em relação ao candidato: “Espero de si uma vitória para o PS”, foram as suas palavras para Renato Leal.


Presidência da AM e cargo de deputado na AR são “compatíveis”

Renato Leal confessou que esta candidatura não fazia parte dos seus planos, no entanto aceitou o convite “imediatamente”. Para tal, segundo disse, contribuíram os anos em que esteve à frente da autarquia e muitas vezes teve de fazer convites semelhantes.

Para o socialista, este é um “desafio diferente”, e ressalvou que não será fácil “honrar o excelente trabalho” de Jorge Gonçalves na Assembleia Municipal. A “capacidade de pôr a ilha à frente do órgão” é a qualidade do actual presidente da AM que Renato mais aprecia, e à qual pretende dar continuidade se for eleito. O candidato deixou a João Castro, que corre por mais um mandato na autarquia, a garantia de cooperação com a Câmara Municipal, mas, principalmente, a certeza de que irá exercer um papel fiscalizador e “de pressão” que preserve os interesses do concelho acima de tudo.

Para estas eleições, a “máquina de fazer votos”, como já lhe chamaram, pretende acima de tudo combater a abstenção, cujos valores no Faial “não são aceitáveis”.

Para além da candidatura à presidência da AM, Renato Leal é também candidato pelo PS às Legislativas Nacionais, concorrendo pelo Círculo Eleitoral de fora da Europa a um lugar na Assembleia da República. Instado a pronunciar-se sobre a possibilidade da conciliação dos dois cargos, Renato Leal desvalorizou as possíveis dificuldades nessa tarefa: “não vejo nenhum problema nisso, tenho vários camaradas que são simultaneamente deputados e presidentes de Assembleias Municipais e levam mais tempo que eu a chegar às suas terras”, disse. Além disso, Renato considera que, com a tecnologia que hoje existe, é possível tratar de uma série de assuntos sem estar presente.


João Castro quer candidatura a pensar nas pessoas

Visivelmente satisfeito com o facto de ter sido possível acrescentar Renato Leal ao arsenal socialista para as eleições de Outubro, o candidato rosa à CMH aproveitou a ocasião para lançar algumas das suas propostas para os próximos quatro anos.

João Castro quer apostar na melhoria da qualidade de vida dos faialenses, e na descentralização da actividade camarária, levando as freguesias a terem um papel mais activo.

Melhorar a rede de equipamentos sociais, continuar a apostar no desenvolvimento tecnológico do concelho e apostar na criação de uma boa rede de equipamentos culturais e desportivos são algumas das propostas socialistas.


Mandatário do PS critica transportes

O silêncio da CMH acerca da recente polémica da contaminação do jet-fuel que ao longo de cerca de duas semanas tem impedido as aeronaves de abastecer no Faial já mereceu críticas da oposição, no entanto, não foi João Castro quem abordou o assunto, mas sim o mandatário autárquico independente. Jorge Gonçalves insurgiu-se contra esta situação, que considera “aberrante e insólita”, e lembrou que, este ano, o transporte aéreo tem servido mal o Faial e é preciso encontrar soluções, e pressionar os responsáveis para que as ponham em prática, como é o caso da ampliação da pista do aeroporto. Também os transportes marítimos mereceram críticas do mandatário, que apresentava esta questão das acessibilidades como um exemplo dos desafios que se põem à Assembleia Municipal. A estes, Jorge Gonçalves acrescentou a possível saída da Rádio Naval do Faial, e a proximidade do centenário da República, na qual a Horta deve ter um papel à altura da sua condição de cidade-berço de Manuel de Arriaga.


FOTO: SUSANA GARCIA

Paulo Oliveira critica “manto de silêncio” sobre contaminação do jet-fuel na Horta

A contaminação do jet-fuel existente na Horta, que tem impossibilitado o abastecimento de aviões na ilha desde 18 de Junho, está a levar tempo demais a ser solucionada. A crítica foi feita pelo candidato social-democrata à Câmara da Horta, Paulo Oliveira, em conferência de imprensa, na passada terça-feira. Oliveira considera que a situação, que tem provocado atrasos e complicações nos voos da Horta, está a comprometer a imagem do Faial enquanto destino turístico, principalmente tendo em conta que estamos em plena época alta.
Para o candidato, mais grave que a demora da GALP em resolver o problema, é o “manto de silêncio” que caiu sobre esta situação. Paulo Oliveira critica a Câmara Municipal da Horta e o Governo Regional por não terem demonstrado a preocupação necessária face a esta problema, nem terem pressionado a GALP no sentido de acelerar a sua resolução, e questiona se a mesma situação teria merecido igual tratamento do Executivo regional se tivesse acontecido em São Miguel.

Oliveira aponta baterias ao presidente da Câmara Municipal da Horta, acusando-o de estar “atarefado e desmultiplicado em todas as comissões, em todos os actos públicos, num esforço de protagonismo pessoal”, ao invés de tomar uma posição na defesa do concelho face a este problema. O candidato destaca que, caso ocupasse o lugar que é de João Castro até Outubro, “já tinha tomado posição pública sobre este problema”. Para Oliveira, lidar com esta situação de uma maneira correcta implicaria ao presidente da autarquia faialense reunir com a GALP, bem como com as companhias aéreas, e ainda esclarecer os faialenses e os turistas, desculpando-se junto destes últimos e “ressalvando o carácter excepcional deste percalço”.

Problema deve ficar solucionado ainda esta semana

Segundo o porta-voz da GALP, Pedro Marques Pereira, o combustível existente na Horta apresenta níveis de biodiesel acima da média. Para cada milhão de litros de jet-fuel apenas podem existir cinco litros de biodiesel, sendo que, na Horta, esse valor ascendia a seis litros, pelo que não era possível abastecer as aeronaves com esse combustível.
A solução encontrada pela empresa foi enviar combustível com níveis mais baixos de biodiesel para a Horta, para misturar com o jet-fuel contaminado. Esse combustível veio de São Miguel e chegou ao Faial na passada sexta-feira.

Pedro Marques Pereira adiantou à nossa reportagem que já foram recolhidas amostras, que foram depois enviadas para laboratório para serem analisadas. Na tarde de quarta-feira, altura em que contactámos a empresa, aguardava-se até ao final da semana a certificação que permitiria voltar a abastecer as aeronaves com o jet-fuel que está no Faial.


FOTO: SUSANA GARCIA