quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Atelier de Trabalhos Manuais da APADIF

Remédio para a Alma

A Associação de Pais e Amigos dos Deficientes da Ilha do Faial (APADIF) comemora este ano o seu 15.º aniversário. Hoje, a associação engloba uma série de valências, fazendo um trabalho de importância incontornável na ilha, não apenas no apoio à pessoa portadora de deficiência, mas alargando a sua área de influência a vários outros campos sociais onde a sua acção tem dado frutos. Fomos visitar uma das suas valências, o Atelier de Trabalhos Manuais, e estivémos à conversa com o presidente da APADIF, José Fialho.

4 São 19h30 da noite de quarta-feira, e o frio do Outono teima em lembrar que o Verão já lá vai, e o Inverno não tarda. As luzes do Atelier de Trabalhos Manuais da APADIF, em frente ao Polivalente de Pedro Miguel, acendem-se, denunciando a presença dos monitores, que chegam mais cedo para preparar os materiais a serem utilizados pelos utentes. Estes começam a chegar um pouco mais tarde, aos poucos. A sala enche-se de pares de olhos brilhantes, de gargalhadas de entusiasmo, de histórias para contar e ideias para partilhar. Cheira a cola, a tinta, a madeira, e a grande mesa, cujo comprimento abrange a sala inteira, enche-se de materiais. O Natal está à porta, e é tempo de preparar os projectos a realizar, para serem vendidos na Festa de Nossa Senhora da Conceição, no dia 8 de Dezembro. O som da tagarelice mistura-se com o barulho dos martelos a bater na madeira, dos pincéis, das agulhas de crochet. O par de olhos mais brilhantes na sala pertence a Mariana. Com a língua a espreitar no canto da boca, a sua atenção está toda no azulejo onde está a aplicar um anjinho através da técnica do guardanapo. Os seus olhos só se desviam do pincel para soltar gargalhadas ocasionais, que contagiam os que a rodeiam. Mariana tem 20 anos, é portadora de Trissomia 21, e é uma das 20 utentes do Atelier de Trabalhos Manuais.
“Gosto muito de vir para aqui, fazer técnica de guardanapo, pintar… O que eu gosto mais de fazer é pintar”, diz Mariana, não esquecendo o convívio com os amigos, que faz da quarta-feira o dia mais ansiado da semana. “Fazemos festas, e também vendemos as coisas que fazemos aqui, e eu também ajudo”, diz, com orgulho.
Noémia Pinto é a mãe de Mariana, e também está activamente envolvida no trabalho da APADIF, tendo ingressado recentemente a sua direcção. Falando do Atelier de Trabalhos Manuais, adianta que é um sítio “muito importante, não só para a Mariana mas para todos os que aqui vêm à quarta-feira à noite. De uma semana para a outra ficam com saudades, porque aqui têm um espaço de convívio, e isso é muito bom”. “Além disso aprendem certas técnicas e fazem os seus trabalhos, e sentem-se satisfeitos quando vêem o fruto daquilo que aprenderam”, acrescenta.
Neste sentido, Noémia frisa a importância que a acção da APADIF tem para muitas pessoas, não apenas nesta Atelier específico, mas em todas as valências, importância que tem crescido ao longo dos últimos anos. Para Noémia, o grande “culpado” é José Fialho, presidente da direcção de há sete anos a esta parte. Noémia considera, no entanto, que os faialenses ainda não se apercebem do real trabalho que a APADIF faz na sociedade: “As pessoas já vão dando valor à APADIF, mas ainda não têm muito conhecimento. Embora haja divulgação, resultado de um esforço grande do presidente, ainda pairam algumas dúvidas sobre a APADIF. Era importante que as pessoas se interessassem mais em saber, até porque esta associação faz bem a muita gente”, refere.
No Atelier de Trabalhos Manuais, a tarefa de pôr todos a trabalhar está a cargo dos monitores António Pereira e Conceição Quaresma. Carpinteiro de profissão, António encarrega-se de supervisionar as marteladas, certificando-se de que estas são mais certeiras nos pregos do que nos dedos dos artesãos. Conceição Quaresma dedica-se há muitos anos aos trabalhos manuais, e perde a conta à variedade de técnicas que conhece.
Reconhece a dificuldade de ensinar pessoas portadoras de deficiência, principalmente invisuais, mas frisa que a recompensa no final é muito maior: “vale a pena, porque eles surpreendem-nos, e surpreendem-se a eles próprios, com aquilo que são capazes de fazer”.

Remédio para a alma
4 Marta Faria é a jovem psicóloga actualmente ao serviço da APADIF, e presença assídua nas noites de quarta-feira no Atelier de Trabalhos Manuais. De acordo com a sua formação profissional, e também com a experiência que já adquiriu na associação, Marta reconhece neste tipo de valência uma série de mais-valias para os seus utentes: “o Atelier funciona como um centro de auto-ajuda, isto é, o nosso objectivo não é apenas promover a destreza manual, mas essencialmente promover o apoio psicológico e emocional”, refere. O sentimento de solidariedade que se instala dentro das paredes do Atelier é um verdadeiro “remédio” para a alma, como constata Marta: “quando um utente traz um problema todos os outros tentam resolver. O atelier funciona como uma família e penso que era bastante vantajoso que as pessoas viessem conhecer esta realidade. Estamos aqui todos com o mesmo objectivo, e partilhamos desejos, expectativas e receios”.
O Atelier funciona também como meio de espicaçar as capacidades dos portadores de deficiência que o frequentam, e os resultados são surpreendentes: “aqui eu é que me sinto com limitações; só sou capaz de recortar”, refere Marta, em tom de brincadeira, acrescentando que “estes utentes trabalham em madeira, em papel, com lãs, e conseguem ultrapassar as suas limitações”. Segundo a psicóloga, no Atelier os portadores de deficiência “conseguem sentir-se parte integrante da comunidade, e não se sentem discriminados”.
O facto dos artigos confeccionados pelos utentes do Atelier serem depois comercializados, num processo em que eles também participam, tem, na opinião de Marta, um impacto muito positivo, principalmente no aumento da sua auto-estima: “quando se deparam com um problema, estas pessoas vão abaixo, deprimem e isolam-se… São regra geral indivíduos com um auto-conceito pobre. O que noto é que os utentes do Atelier têm um auto-conceito já bastante mais positivo, e trabalham com uma felicidade enorme. Quando vêem que as pessoas gostam dos seus trabalhos ficam contentes, sentem que aquilo que fazem é valorizado, o que não acontecia até eles virem para cá”.
Instada a pronunciar-se sobre a sua realização profissional neste tipo de funções, Marta confidencia que, inicialmente, não era este o tipo de trabalho que pretendia fazer: “quando terminei a licenciatura dizia que não queria trabalhar com pessoas portadoras de deficiência, ou na área da toxicodependência. Agora, se pudesse, trabalhava só nisto”, refere. “Aqui não somos só psicólogos, temos que ter uma abertura: sou a psicóloga, mas também a amiga, e a colega na realização das actividades”, explica, acrescentando que “se aceitarmos as limitações deles, assim como eles aceitam algumas nossas, penso que isto funciona bem, e passa a ser fácil, muito cativante, e muito gratificante. Para isso basta um sorriso deles, ou uma palavra carinhosa”.


Um percurso de sucesso
4 Passando um olhar pelo número de utentes que a APADIF tem em todas as suas valências, não é possível apontar valores exactos, mas a soma ultrapassará certamente a centena.
Na direcção da APADIF desde 2001, José Fialho tem sido um dos pioneiros neste “desbravar” de caminho que se tem verificado na acção daquela Associação no Faial.
Fazendo um balanço bastante positivo dos últimos anos da APADIF, José Fialho lembra que, em 2001, a Associação não tinha sequer espaço para reunir. “O primeiro espaço que conseguimos foi o hall de entrada do dispensário, que é hoje a nossa sede”, recorda. A partir daí, e graças a grandes doses de esforço e dedicação, as valências foram surgindo, e a APADIF foi crescendo. “Abrimos o espaço de reabilitação na própria sede, com terapeuta ocupacional, terapeuta da fala e psicóloga, o trabalho começou a dar frutos, e as pessoas começaram a acreditar em nós. Depois abrimos o ATL para 20 crianças, e, como era muito procurado, passámos para 40”, refere José Fialho. O projecto Veredas é outra das conquistas da APADIF. Como explicou o presidente da Associação, destina-se à “inclusão de jovens em abandono escolar, que havia necessidade de agarrar, já que se podiam tornar um prejuízo para a sociedade e não o benefício”. “Temos de os agarrar, e garantir que irão tirar a escolaridade obrigatória”, alerta José Fialho. Outro projecto da APADIF que tem dado frutos positivos é o Trilhos Saudáveis, no Bairro das Pedreiras, para jovens daquele local. “Aí a nossa missão é criar actividades lúdicas para que os jovens estejam ocupados e se mantenham livres de dependências, não consumindo drogas nem álcool”, explica. Um dos projectos mais recentes da APADIF é o Porto Pim Digital, um espaço dedicado a promover o acesso às novas tecnologias.
Quanto a este Atelier de Trabalhos Manuais, não é um projecto recente, no entanto teve de sofrer um interregno, devido a falta de financiamento. “Agora partimos para este projecto com dinheiro nosso, e as vendas que se vão fazendo é que permitem comprar material para se trabalhar, porque os técnicos que aqui estão são voluntários”, refere José Fialho.
O vasto leque de actividades da APADIF continua a aumentar, e José Fialho aponta como uma das causas a crescente credibilidade da Associação: “as entidades governamentais começaram a acreditar no trabalho que fazemos. No início, tínhamos que pedir às entidades locais que nos ajudassem, agora muitas já tomam a iniciativa e solicitam-nos para sermos parceiros em algumas das actividades que organizam. Isso para nós é bom, pois vemos que a população reconhece que estamos no bom caminho”.
Hoje em dia a APADIF não ajuda apenas os portadores de deficiência, mas várias outras pessoas com dificuldades. O seu crescimento traduz-se também no aumento do número de funcionários, tendo-se tornado uma importante empregadora de mão-de-obra qualificada: “já temos 19 funcionários, a maioria deles licenciados. Assistentes sociais, educadoras de infância, psicóloga… Temos quadros que vão dando resposta as necessidades, e todos os dias nos aparecem novos utentes, novas pessoas a pedir-nos ajuda”, refere o presidente.
Para José Fialho, a sociedade está cada vez mais consciente da importância que a APADIF tem no seu seio, e aponta como prova o sucesso das comemorações do 15.º aniversário: “tivemos três dias de actividades, que eu tive receio que não fossem cumpridas, mas foram. Todos os utentes trabalharam em conjunto e pusemos de pé um evento interessante”, refere. No entanto, o crescimento do interesse da Associação também significa trabalhos redobrados para quem a coordena: “temos receio de a certa altura não termos capacidade de resposta; já não pode passar um dia sem que eu vá à Associação. Para quem anda nisto no voluntariado é complicado”, refere José Fialho, acrescentando que, apesar das dificuldades, no final o sentimento é sempre de recompensa.
O presidente da APADIF orgulha-se da imagem de credibilidade e responsabilidade que a associação tem conseguido promover: “posso dizer-lhe com algum orgulho que tenho um bom relacionamento com todas as instâncias da ilha e até com o Governo Regional, não por uma questão de cores partidárias mas porque quando fazemos um projecto, fazemo-lo credível, e temos cumprido tudo o que nos propomos fazer”. “Ás vezes as pessoas procuram-nos com problemas que devem ser tratados noutras instâncias, mas têm confiança em nós e querem que lhe indicamos o caminho. Isso para mim é muito importante e orgulho-me de ter técnicos que sejam capazes de dar resposta a todas as necessidades”, refere. De facto, para José Fialho, um dos segredos desta receita de sucesso é a equipa de trabalho: “temos vindo a imprimir ao longo deste tempo nos nossos funcionários que sejam polivalentes e trabalhem para o utente”, refere.
José Fialho sente-se satisfeito com a crescente sensibilização da comunidade faialense para os problemas que os portadores de deficiência enfrentam no dia-a-dia, no entanto refere que, neste aspecto, ainda há um longo caminho a percorrer, Nesse sentido, as iniciativas levadas a cabo pela APADIF no aniversário foram passos importantes: “falámos e mostrámos os problemas que estas pessoas têm na ilha, e penso que a comunidade nunca se tinha apercebido de que fossem tanto”, refere José Fialho.
“Mostrámos os obstáculos que há na cidade para pessoas invisuais, ou utilizadores de cadeiras de rodas: passeios não rebaixados, cabines telefónicas mal instaladas, multibancos muito altos, papeleiras que são obstáculos para invisuais… As próprias pessoas deixam por vezes os caixotes do lixo na rua de qualquer maneira, os comerciantes, as caixas de cartão…”, revela o presidente da APADIF.
José Fialho ficou muito satisfeito com as conclusões a que o vice-presidente da Câmara Municipal da Horta, Orlando Rosa, chegou no colóquio promovido pela APADIF sobre estas questões: “depois de ouvir o que dissemos, concluiu que muitas coisas devem ser feitas já, até porque não implicam grandes gastos, e resolvem-se grandes problemas”, revelou José Fialho, com optimismo. A tão aguardada obra do Saneamento Básico deve ser também, para o presidente da APADIF, uma oportunidade para melhorar este tipo de situações.

Planos para o futuro
4 Falando de futuro, a Associação tem dois projectos ambiciosos, que anseia por levar a bom porto: “um deles, com o qual queremos arrancar em Janeiro, é a ampliação da escola da Volta, para criação de uma creche, que queremos ter a funcionar no próximo ano lectivo, com capacidade para 33 crianças”, refere José Fialho, acrescentando que o projecto, apoiado pela Direcção Regional da Solidariedade Social, já foi aprovado.
O outro grande projecto da APADIF é na área da Terceira Idade: “este ano vamos ficar responsáveis pela parte de Educação Física de todos os centros de convívio da ilha, e fizemos uma proposta para ter também as actividades lúdicas sob nossa tutela”, informa José Fialho. Estes dois projectos são os grandes desafios da APADIF, no entanto, existem outros factores que a Associação quer ver melhorados.
Quanto ao Atelier de Trabalhos Manuais, o desafio é conseguir fazer com que funcione não apenas um dia por semana, e que tenha outra visibilidade. “Queremos que esteja aberto no fim-de-semana para as pessoas verem os trabalhos feitos pelos utentes, e no Verão também, para que os turistas possam visitar, porque quando as pessoas vêem quem trabalha aqui e quem faz estes objectos têm logo outro carinho. Para nós, dar a conhecer o que fazemos é muito importante”, refere.
Por agora, no Atelier de Trabalhos Manuais trabalha-se com afinco, na produção de peças que serão expostas e vendidas na Festa de Nossa Senhora da Conceição, no dia 8 de Dezembro.
O último vôo do Açor


4Uma das notícias da semana foi o anúncio do fim da carreira de jogador de Pedro Pauleta.
Nascido em 1973, na ilha de São Miguel, Pauleta tem sido um dos maiores embaixadores dos Açores no mundo.
Nunca jogou na primeira divisão portuguesa, mas fez furor por outras paragens, e teve Paris rendido aos seus pés enquanto jogou no Paris Saint-German, clube que representava desde 2003 e onde acabou este ano a sua carreira, e do qual será embaixador.
Ao serviço da selecção nacional, alinhou em 88 partidas, e marcou 47 golos, ultrapassando Eusébio e tornando-se no melhor marcador de sempre na história dos "tugas". Scolari chamou-lhe "matador" na grande área, e os companheiros de equipa sempre elogiaram as suas qualidades técnicas e humanas. Ficou conhecido como "ciclone dos Açores", e a sua imagem de marca depois de "fuzilar" dezenas de guarda-redes com o seu pontapé certeiro era o "vôo do Açor".
Àparte as suas capacidades técnicas de excelência, o homem por detrás do futebolista foi sempre um orgulho para os Açores e para Portugal - e continuará, por certo, a sê-lo - pela integridade e dignidade que sempre soube ter em campo, e fora dele. O seu carácter deveria ser exemplo para muitas jovens "estrelas" do futebol, cuja espetacular capacidade técnica não anula a falta de carácter e de valores, por muito que se possa pensar o contrário.
O açor não voltará a voar no relvado do Parque dos Príncipes, mas Pedro Pauleta certamente continuará a contribuir para o engradecimento do futebol, agora fora das quatro linhas.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Novo Governo

4 O X Governo Regional já tomou posse, e todo o processo ficou marcado pela polémica eleição do presidente da Assembleia. Fernando Menezes não gostou de não ter sido escolhido novamente para o cargo, e bateu com a porta, deixando a cadeira de deputado vazia, que depois foi ocupada por Ana Luís. A escolha do terceirense Francisco Coelho para o cargo já era um rumor em plena campanha eleitoral, mas subsistia a esperança que de Menezes "bizasse" na presidência da Assembleia, caso contrário, por que razão teria ele encabeçado a lista socialista no Faial? Como disse - e bem - Luís Garcia, não se convida um general para ser soldado...
Não é de estranhar que Menezes não tenha gostado da despromoção, mas é de condenar a maneira como ele (e não só) manda a vontade dos faialenses que o elegeram como deputado às urtigas. Seria bom que todos os candidatos a deputados se colocassem em tal posição com dignidade para assumir a vontade dos cidadãos eleitores.
Em relação à ausência de faialenses no Governo, e apesar de César dizer o contrário, é claro até para o maior dos ingénuos que isso não traz benefícios nenhuns à nossa ilha. No entanto, as escolhas estão feitas, e cá vamos nós ficando relegados para uma imporância menor num arquipélago onde os centralismos continuam a existir, diga o que se disser.
No entanto nem tudo são espinhos neste arranque de legislatura: O grupo parlamentar socialista - liderado por Hélder Silva - apresentou uma proposta de alteração ao regime de financiamento dos partidos representados no Parlamento, no sentido de cortar as despesas. Numa altura em que a crise paira sobre o mundo como um bicho papão, é bom ver que, por uma vez, os deputados irão dar o exemplo, e "apertar o cinto", como o comum dos mortais. Se bem que o cinto do comum dos mortais já tem os furos encostados à fivela...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008


E nós aqui no meio de não saber de nada

Teatro de Giz estreia nova peça

“E nós aqui no meio de não saber de nada”, assim se intitula o mais recente trabalho do Teatro de Giz, que sobe ao palco do Teatro Faialense na próxima quarta-feira, dia 26 de Novembro, a partir das 21h30.
Com encenação de Tiago Porteiro, este trabalho surge da vontade do Teatro de Giz de não deixar em branco a efeméride do 50.º aniversário do Vulcão dos Capelinhos. Inicialmente com um apoio previsto da Comissão Executiva das Comemorações, o Teatro de Giz teve de ajustar as ideias que tinha para este projecto, em virtude do referido apoio nunca ter chegado. No entanto, não baixaram os braços, e a peça aí está, pronta a apresentar ao público faialense.
Um trabalho ambicioso, resultado de uma série de workshops na área da escrita, da música e da fotografia, que ganha forma a partir da coordenação das várias áreas em cima do palco.
Estivémos à conversa com Tiago Porteiro, que nos falou um pouco deste projecto.


Como é que surge a ideia desta peça?
A peça surgiu no contexto dos 50 anos do Vulcão, e foi proposta à Comissão Executiva. Num primeiro momento o acolhimento a este projecto foi positivo, e ele foi-se construindo a partir daí, mas depois a Comissão deu o dito por não dito, por isso a peça ficou de fora do programa, mas o Teatro de Giz achou por bem continuar com o projecto.
Contámos com o apoio da Direcção Regional da Cultura, da Câmara Municipal da Horta e da Hortaludus, e de uma série de outras entidades que ajudaram a por de pé o projecto, para além de um grande esforço dos elementos do Teatro de Giz.

Fale-nos um pouco do processo…
Era um projecto ambicioso, que tinha a intenção de envolver toda a ilha, fazendo pequenos espectáculos. Por vários motivos, nomeadamente a falta de apoio da Comissão Executiva das Comemorações do aniversário do Vulcão, acabámos por reduzir a este espectáculo no Teatro Faialense.
Desde início a ideia foi partir de linguagens diversificadas e cruzadas, numa abordagem do Teatro como possibilidade de cruzamento de linguagens: imagem, música, escrita de texto, e depois toda a parte de encenação. Por isso pensámos um projecto ao longo do ano, onde os elementos do Teatro de Giz, e não só, iriam passar por diferentes oficinas, e ir preparando os elementos que depois iriam compor o espectáculo.
Houve a oficina da imagem (dirigida por Virgílio Ferreira), um trabalho de escrita, orientado pelo dramaturgo Carlos Machado, onde o texto foi escrito, e uma oficina de música, orientada por Carlos Guerreiro. Foi a partir desse material que eu fui trabalhar.
A proposta do grupo da escrita não foi no sentido de documentar o Vulcão, porque houve muita coisa escrita e dita sobre isso. Preferiram enveredar por um caminho sui generis e curioso, partindo da seguinte ideia: o que é que seria uma abalo interno; um vulcão no interior de uma pessoa? Pode fazer-se uma alusão fantástica, imaginária, às pessoas que vivenciaram o Vulcão, mas do ponto de vista das perturbações internas e íntimas que por analogia se possa comparar entre um vulcão na natureza e um vulcão no interior de uma pessoa. Era uma matéria textual muito particular; estranha, do ponto de vista dramatúrgico, com muito poucos diálogos, muito fragmentada, muito discutida. Depois disso, começou-se a trabalhar. Eu não vivo cá, vim cá duas ou três vezes, para começarmos a meter a mão nessa lava. Pouco a pouco foi-se reescrevendo, adaptando articulando, escolhendo os actores, criando a equipa e a dinâmica de trabalho, e tudo isso veio a resultar neste espectáculo.

Foi um processo complicado?

Sim, todos os processos são particulares, e este é um projecto de teatro que envolve muita gente, pessoas com vários níveis de experiência, com um texto com as particularidades que este tinha, com a minha vinda fragmentada… Além disso, a temática do Vulcão é peculiar, pois é difícil captar essa força enorme; desmesurada, que é a força do mundo, no fundo, porque os vulcões foram o berço do surgimento da vida. Foi um desafio enorme; todos esses ingredientes fizeram com que não fosse um processo simples, mas sim uma aventura criativa, e humana. Ainda a uma semana da peça estamos a ver aparecer coisas. É um processo de descoberta.

Como é que o Tiago embarca nesta aventura?
Embarco de forma natural. O Teatro de Giz queria integrar as Comemorações dos 50 anos do Vulcão; achava que não podia passar ao lado da efeméride, tão particular para o Faial. Eu estava por cá, por acaso, e sugeriram-me que apresentasse uma proposta, o que eu fiz. Conheço muita gente do grupo, sou de cá, trabalho em Teatro, já tinha trabalhado com o grupo há 10 anos… Foi um processo natural. E eu tinha o desejo de voltar a trabalhar com o Teatro de Giz, na minha terra, e neste caso foi muito especial trabalhar pela primeira vez no Teatro Faialense, que estava fechado quando eu era miúdo… Foi um desafio diferente.

O que é que o Tiago diria para convencer o público a vir ver a peça?
Venham ver!. Quis-se um espectáculo heterogéneo, que tem música ao vivo, imagem, luz, trabalho de actores… Tem ingredientes de diversas linguagens. Implica alguma tecnologia também, que ajuda a trazer espectacularidade ao conjunto. E, sobretudo, tem também estas palavras muito particulares, dos “habitantes imaginários” do Capelo e do Faial, que vivenciaram o Vulcão.
Tenho um desejo particular de que as pessoas do Capelo, com ligação mais particular ao Vulcão, venham ver a peça. Acho que é uma abordagem à temática do Vulcão nunca vista, e isso é aliciante para que muitas pessoas que não vêm por hábito ao teatro virem ver, interrogar, criticar, aplaudir, discutir connosco. Penso que não serão defraudadas.
Não se coíbam de vir ao Teatro, porque o Teatro é esse lugar de cruzamento de pessoas diferentes, com mais ou menos prática, de uma multiplicidade de pontos de vista, de identidades diferentes, o que faz com que o Teatro seja uma festa, onde se vê o imaginário realizado.

Esta é uma peça para nos fazer pensar, rir, chorar?...

Espero que tudo isso. É um espectáculo visual, musical… As palavras são cinzentas, mas permitem reflectir sobre o renascer, o recomeçar após perder tudo, as perturbações internas de cada um… Como é que vamos descobrindo, avançando e recomeçando, após qualquer coisa que nos acontece, nos abala, nos faz tremer…

Quantas pessoas estão envolvidas neste processo?
Muita gente: os participantes nos vários workshops, os actores, a produção, a cenografia, a luz, o som… Ao longo deste trabalho, como não podia estar cá sempre, tive uma colaboração muito íntima, rica e fundamental, de um amigo com quem tenho uma cumplicidade artística de há muitos anos, o Jorge Parente, que nos ajudou a gerir todo este conjunto de pessoas. Estão envolvidas entre 30 e 40 pessoas, das quais temos oito actores em cima do palco, e teremos entre quatro e seis músicos.

Este é um projecto ambicioso, diferente do que se tem feito por cá… Quais são as suas expectativas em relação às reacções?
É de facto muito ambicioso este projecto, onde participam profissionais consagrados de algumas das várias áreas envolvidas. As expectativas são grandes, e eu próprio estou surpreso em relação à forma como conseguimos por esta complexa máquina a funcionar. Em relação à estreia, é uma incerteza, todo o processo é uma descoberta que se faz dia-a-dia. Vai crescendo e eu já não o controlo, já se controla por si, e tem a sua coerência. Mas começo a ficar muito contente com o que vejo.

Pelo seu percurso no Teatro, o Tiago é a pessoa certa para fazer um diagnóstico da actividade cultural, e teatral, no Faial… Que evolução tem visto?
O facto do Teatro Faialense estar em actividade permitiu uma evolução, porque é uma “casa”; uma referência que tem uma actividade regular, não só de Teatro mas de várias actividades culturais. Estou surpreendido e acho que se vive na ilha um investimento na cultura fundamental, e isso agrada-me. No Teatro, sei que a Direcção Regional da Cultura tem investido em formação nos grupos amadores. Quero salientar dois grupos que conheço bem, o Teatro de Giz e o Carrossel, que têm linguagens diferenciadas, mas têm feito um excelente trabalho, principalmente tendo em conta o facto de serem amadores. Ás vezes agrada-me mais trabalhar com os amadores, as pessoas que “amam” o teatro; é muito tocante.
O Teatro de Giz tem criado uma dinâmica que os coloca num circuito com efeito bola de neve, em que eles têm crescido. Trabalhei com eles há 10 anos e é notória a evolução. A Ilha de Arlequim teve aqui um papel importante, por tudo o que possibilitou.
Fico muito contente de ver esta evolução, mas é claro que achamos sempre pouco. O importante é que cada vez mais pessoas tenham acesso ao Teatro, e gosto em vir ver as peças.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Paulo Oliveira, responsável pelas Mesas Sectoriais de Comércio e Turismo na Câmara do Comércio e Indústria da Horta

"Há que encontrar formas de melhorar a oferta"

No assinalar do 115.º aniversário da CCIH fomos falar com Paulo Oliveira, presidente da Mesa Sectorial do Turismo da Câmara do Comércio e Indústria da Horta, e agora também responsável pelo Comércio, cuja Mesa Sectorial neste momento não existe. Dificuldades e desafios para ambos os sectores foram os temas abordados, num check-up a estas duas áreas estruturantes da economia faialense.

COMÉRCIO

“OS COMERCIANTES FAIALENSES TÊM DE ACTUALIZAR-SE O MAIS POSSÍVEL”

Quais as vantagens para os comerciantes locais de se congregarem na CCIH?
Paulo Oliveira - As vantagens são muitas. Se tiram partido delas é que já tenho dúvidas, porque lamentavelmente não os tenho visto nas Assembleias-Gerais e reuniões. Têm aparecido alguns, presença já de referência, mas grande parte não. Ou não têm tempo, ou as reuniões são a horas inconvenientes, ou estão desmotivados… Desconheço as razões, mas o que sei é que neste momento é muito difícil a mobilização. Aliás, sempre foi.

Acha que há falta de comunicação entre comerciantes e CCIH?
PO - Falta de comunicação não será, até porque é regular a CCIH enviar faxes, mensagens de telemóvel, etc., a informar dos eventos que acontecem. No entanto não há receptividade. Por exemplo recentemente houve um Seminário sobre Qualidade na Hotelaria e a sala estava cheia... de alunos da Escola Profissional. Contavam-se pelos dedos os empresários da restauração e hotelaria. São eventos que custam muito à CCIH, não só em termos financeiros, mas até no esforço de sensibilizar as entidades regionais para não concentrarem recursos apenas em S. Miguel e Terceira e virem à Horta. Às vezes esse esforço é inglório.
Os empresários não aparecem nos espaços de discussão e depois queixam-se das nossas sensibilidades não estarem reflectidas nas linhas de orientação regionais. Obviamente que, se não nos chegarmos à frente, elas não podem aparecer, e gera-se um círculo vicioso: as pessoas não contribuem porque não se sentem motivadas, mas também não se motivarão se não intervierem de modo a verem expostas as suas ideias. A CCIH é uma Associação, logo é imprescindível a colaboração dos sócios.

Quais são as dificuldades do comércio tradicional no Faial?
PO - São muitas, e resultam de culpas dos vários intervenientes, não só empresários mas também clientes.
Penso que há falta de sensibilidade para consumir o que é nosso. Enquanto que a nível nacional e europeu existem campanhas para se comprar o que é nosso, a nível regional não há esse culto. Os chamados “clientes de topo”, que são os que ganham mais, mas também viajam mais, preferem comprar fora.
Da parte dos empresários houve um esforço de actualização, com o URBCOM, em termos de obras nas lojas para torná-las mais atractivas. Em termos de produto, penso que há alguma falta de formação, nas áreas do atendimento (por exemplo é cada vez mais importante que os funcionários falem inglês), do vitrinismo, e mesmo de postura: o funcionário que está à porta à espera do cliente sem nada que fazer dá mau ambiente à loja.
Por outro lado, existe desconhecimento do cliente em relação a vários factores. Quando se diz que as coisas cá são mais caras, se virmos os chamados artigos de marca (pronto-a-vestir, calçado, vinhos, carros), esses são tabelados a nível nacional. Admito que no Faial existam menos possibilidades de escolha, como é natural… Mas os preços são de referência.
Também é necessário que se criem condições que atraiam clientes às zonas onde está instalado o comércio tradicional. Por exemplo neste momento em Ponta Delgada a iluminação de Natal já funciona, com investimentos muito grandes. Cá, até à data em que falamos, nem montada está, e é sempre a mesma.
Outro problema é a ausência de Parques de Estacionamento. O Plano de Urbanização prevê quatro ou cinco, mas o mais central é o que eventualmente se situará no actual Quartel de Bombeiros, caso este vague. Não existe nenhum na Rua Direita. Já dei algumas sugestões à autarquia de como se poderiam criar opções de estacionamento na rua principal. No Largo Duque D’Ávila, por exemplo, pode fazer-se um parque de um ou dois pisos, ideia que penso ser de um anterior arquitecto da CMH. Seria para 40 carros, não é muito, mas são menos esses que ficam sem lugar para estacionar. Outras soluções seriam em frente à residencial de São Francisco, por detrás do Mercado… Mesmo ao longo da Avenida Marginal há espaços que podem ser aproveitados. Depois, há que utilizar o mini-bus direccionado para os parques de estacionamento e não como urbana citadina para quem não tem carro. Quando o mini-bus foi implementado, era para servir os parques de estacionamento que seriam feitos nos extremos da cidade. Os parques nunca avançaram e continuamos com o mini-bus a funcionar como urbana.

Podemos concluir que a evolução do comércio tradicional requer iniciativa não só dos empresários mas também da autarquia e dos clientes?
PO - Sim. Tenho apelado ao diálogo entre CMH e CCIH, e aguardo com expectativa que as obras do Saneamento Básico, que vão virar a cidade do avesso, não sejam apenas abrir as estradas, colocar as tubagens e voltar a tapar. Há que aproveitar essa grande obra, que trará muito incómodo aos faialenses durante a execução, para trazer o máximo de benefícios à cidade: fechar ruas ao trânsito, alargar passeios, criar condições para a exploração de esplanadas (aqui também a nível financeiro, pois as taxas são muito caras) … Há muita coisa a ser feita, continuamos a aguardar mas este compasso de espera não beneficia ninguém.

Há falta de diálogo entre a CMH e a CCIH?
PO - Como ficou recentemente provado, há.

Está a falar da questão da Derrama?
PO -
Exactamente. Acho que é mais uma teimosia do que propriamente um esforço para contribuir. Há quem goste de falar em crise, há quem não goste, mas penso que toda a gente está empenhada em ultrapassar esta crise, ou dificuldade, ou o que lhe quiserem chamar, da melhor forma. E não custa nada dar sinais de boa vontade. Se a CMH está a dar um sinal de boa vontade, poderia fazê-lo de melhor forma.

O Faial, à semelhança do país, tem-se deparado com um fenómeno cada vez maior, que são as lojas orientais. Qual é o seu impacto?
PO - O impacto é grande. Defendo que todos têm os mesmos direitos, mas também as mesmas obrigações, e o que eu não vejo é as lojas orientais a cumprirem essas obrigações. São os horários de porta aberta que não são cumpridos, as regalias sociais, as próprias inspecções fiscais e económicas que se coíbem de exercer a sua acção como no comércio tradicional. As lojas devem ser encaradas da mesma forma, e pertencer a um ciclo de inspecções regulares, igual para todos.

Que desafios se põem aos empresários locais da área do comércio?
PO - Primeiro, têm de deixar de considerar-se entre eles concorrência, e passar a ser parceiros de negócios.
Têm de estar mais presentes na CCIH, e transmitir-lhe as suas preocupações.
Têm de se actualizar o melhor possível: análise diária dos caixas, ver onde se vende mais e menos, mudar mais vezes as montras... Tudo isso é importante para que o nosso comércio não fique parado no tempo. Penso que tem havido esforço de actualização, mas persistem alguns maus hábitos.
Temos de ter sempre em conta, no entanto, o tamanho do nosso mercado. Não podemos ter a mesma diversidade que em Lisboa. Há que ter, por exemplo, a sensibilização de não adquirir grandes quantidades da mesma peça de roupa.
Para evoluir o empresário precisa também da colaboração dos seus funcionários, e por vezes é difícil. Muitas vezes queremos manter os estabelecimentos abertos até mais tarde, ou fazer com que os funcionários assistam a formações, mas eles não têm disponibilidade. Há aqui uma inércia que não é só do empresário, mas também uma questão de mentalidade, e de identificação e solidariedade com a equipa. Tem de haver uma quebra progressiva de barreiras, de alguns empresários mas também de alguns funcionários e alguns clientes. Só assim conseguimos beneficiar a oferta que temos.
O empresário que decidiu apostar na ilha e não lá fora precisa de solidificar essa aposta todos os dias, ter o apoio dos funcionários, o carinho dos clientes, com a sua preferência…
Precisamos de uma postura de defesa do que é nosso; um certo clubismo, como aquilo que se vê no futebol, na política, que deveria estender-se à área comercial.
Temos de nos lembrar que o dinheiro que deixamos na ilha fica cá, e contribui para o desenvolvimento da nossa economia, desmultiplica-se, ou seja, todos beneficiamos.

Estamos a aproximar-nos do Natal, a época do ano mais importante para os comerciantes. A CCIH já tem uma estratégia para dinamizar o comércio tradicional este ano?
PO - Sim, e será divulgada na altura certa. O figurino será de um modo geral o mesmo. Tentámos alguma inovação, maior criatividade exterior. Queremos engalanar mais a rua. Vamos ver se conseguimos pôr as ideias de pé.

Os empresários faialenses receiam ter menos lucro este Natal, devido à crise?
PO - Penso que vamos ter menos vendas. A descida será maior para uns e menor para outros, e aí tudo depende um pouco da tal postura. O comerciante tem de fazer uma análise diária do que se passa na sua loja para saber o que pode melhorar. Essa análise não pode esperar meses. Se o Natal correr mal, acho que há lojas que não conseguirão sobreviver. O panorama não é famoso e todos se deviam unir para ultrapassar a situação.




TURISMO
“AÇORES NÃO TÊM POLÍTICA DE TRANSPORTES MARÍTIMOS CREDÍVEL”


Mudando o rumo da nossa conversa, esta crise afecta também o Turismo no Faial?
PO -
No Faial o Turismo está num patamar aceitável. Precisamos de mais hotéis, mais voos, mais turistas, mas nos últimos anos os números mantiveram-se, o que não acontece na Região, que neste momento está a perder 36 mil dormidas. À excepção de S. Miguel e Sta Maria (e também o Pico, mas aí há a condicionante das unidades hoteleiras estarem em obras), as dormidas nos Açores até têm crescido. Em S. Miguel as dormidas descem mas há mais turistas, o que é um contra censo: o que acontece é que há mais turistas a ir a S. Miguel mas ficam lá menos dias. Acho que os Açores caminham no trilho certo, que é o Turismo da Natureza, mas em S. Miguel o betão cresce, e não podemos promover verde e vender betão.
Neste momento está-se a desenvolver um plano de Marketing para o Turismo nos Açores, que a CCIH tem acompanhado. Penso que será uma boa forma de promover a Região.

O que falta ao Faial para dinamizar mais o seu Turismo?
PO -
Principalmente a organização do produto. Os empresários não estão organizados entre si: um vende o quarto, outro a refeição, outro o carro, mas não pacotes conjuntos. A divulgação do destino Horta parece ser quase proibida a nível regional. Fala-se sempre nos Açores, porque somos pequenos vamos promover o arquipélago num todo, mas há espaço para o destino Horta: estamos a quatro horas da Europa num destino seguro, sem terrorismo. Por outro lado, continuamos na Europa, com os benefícios que daí resultam. Um alemão cá sente-se em casa.
A organização do produto passa também por aumentar o tempo de estada do turista no Faial. Sobrevivemos do turista continental, mas este faz um “circuito açoriano estafante” (poucos dias em cada ilha), onde acaba por passar o tempo a viajar. Temos também de acabar com a ideia da “volta à ilha”. O turista chega ao Faial, dá a volta à ilha e pode ir-se embora. O Centro de Interpretação do Vulcão foi um pontapé de saída para acabar com isso: não se consegue dar a volta à ilha e visitar o Centro dentro dessa volta. Há que criar circuitos paralelos. Os taxistas têm de ser sensibilizados para, em vez de vender uma só “volta à ilha”, vender vários roteiros: a volta da cidade, com os miradouros, a Caldeira com a visita à fabrica de lacticínios e a uma exploração agrícola, o Centro de Interpretação com o Varadouro e a escola de artesanato… O turista pode ir ver as baleias, conciliando isso com a visita ao museu de Scrimshaw e um passeio na Marina e está um dia feito. Assim em vez de ficar dois dias fica uma semana.
Uma grande potencialidade a aproveitar é ligar o Turismo à pesca e à agricultura: a possibilidade do turista ir pescar, ou de se instalar numa quinta rural com galinhas, vacas, ou onde pode vindimar… Com isto valorizamos também os nossos produtos de qualidade do sector primário, que são únicos e nos valorizam.

O preço das passagens para os Açores é uma das grandes dificuldades para os empresários do turismo?
PO - O nosso problema são as acessibilidades. Neste momento o mercado é dominado pelo code-share SATA/TAP mas podíamos evoluir para um mercado semi-aberto, com algumas low-costs ou alguns voos charter como existe em S. Miguel e Terceira. Para isso é importantíssima a ampliação da pista do Aeroporto.
As acessibilidades passam não só pela tarifa, mas também pelos horários. Não nos serve ter um voo que sai de Lisboa as 08h00, porque não consegue fazer ligação com o resto da Europa. Interessa-nos ter um voo mais tarde, que possa trazer turistas que tenham chegado a Lisboa de manhã. O mesmo para a partida da Horta: é importante poder apanhar o voo para o seu país ainda no mesmo dia, pois o turista rejeita destinos onde tem de pernoitar na ida ou no regresso. No Inverno IATA, apenas com um voo diário, só nos interessa um horário central, ao meio-dia. No Verão, com dois voos diários, tal dificuldade não existe.
Temos também a questão dos transportes marítimos inter-ilhas. A Mesa do Turismo defende cinco ligações diárias fixas ao Pico ao longo de todo o ano (7h; 10h; 13h; 15h e 17h) e no Verão mais uma às 20h, e em Julho e Agosto outra às 00h, para que as pessoas possam ir à outra ilha jantar, divertir-se, e regressar à ilha de alojamento. Queremos também uma ligação diária a S. Jorge, que no Verão passasse a duas, reforçada com uma ao meio dia S.Roque/Velas.
A nível regional é o descalabro. Temos barcos novos que não sabemos quando começarão a operar, e a definição dos horários prejudica-nos, porque os turistas decidem onde vão passar as Férias de Verão em Dezembro, e nessa altura querem ter na mão, o bilhete de avião, o alojamento, os bilhetes de barco… Não conseguimos ter isso definido, porque os horários dos transportes marítimos são estabelecidos em cima da época. Este ano a Transmaçor teve cinco horários diferentes no Verão. Isto não funciona, tem de haver carreiras estruturantes, mantidas ao longo do ano.
Somos uma Região insular sem política de transportes marítimos credível… Estamos a aproveitar mal a nossa maior potencialidade: o Mar.
Temos também de aproveitar ao máximo a componente ambiental. Temos já o Centro de Interpretação e um bom Jardim Botânico, mas temos também um aquário Virtual que já devia estar pronto há um ano, agora é que se vão fazer os acessos à Fábrica da Baleia, o Morro de Castelo Branco está esquecido, a Caldeira não tem visto investimento… Temos fundamentalmente ecologia e ambiente para vender, e como tal, precisamos que rapidamente se façam mais investimentos estruturantes na área. O Campo de Golfe é um exemplo.

Preocupa-o esta inércia relativamente à execução do Campo de Golfe?
PO - Sim é uma obra importante para aumentar a oferta e combater a sazonalidade, que é o nosso calcanhar de Aquiles. As unidades faialenses estão esgotadas durante 6 semana em Julho e Agosto, mas no resto do tempo não é assim.

Quer no Comércio, quer no Turismo, o que recomenda?
PO – Temos, todos, que contribuir para aumentar e diversificar a oferta.
Comparando, S. Miguel tem o Verão e o Santo Cristo em Maio. A Terceira tem o Verão e as Sanjoaninas em Junho. E o Faial, tem o Verão e a Semana do Mar em Agosto. Enquanto as outras ilhas têm 3 a 4 meses de ocupação plena, a Horta tem escassas 6 semanas.
Há que encontrar formas de melhorar a oferta, e para isso tem de haver diálogo no Triângulo, mas, e acima de tudo, no Faial, com empresários, trabalhadores, clientes, políticos... Ninguém poderá ficar marginalizado deste processo, se quisermos - e penso que todos queremos - um futuro melhor para todo.
A tarefa que nos espera é gigantesca, mas uma coisa é certa: só beneficiará quem se esforçar!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eleições Legislativas Regionais 2008

PS vence em todas as ilhas pela primeira vez

Sem grandes surpresas, o Partido Socialista repetiu a vitória de há quatro anos, garantindo novamente a maioria absoluta no hemiciclo açoriano, numas eleições que ficaram marcadas pela demissão do líder do PSD/Açores, Carlos Costa Neves.
As eleições do passado dia 19 de Outubro representaram o primeiro teste à nova Lei Eleitoral, que cumpriu o seu objectivo, garantindo a pluralidade parlamentar, com o maior número de forças políticas de sempre a ocupar as cadeiras do hemiciclo.
A taxa de abstenção atingiu um valor histórico.


A Era de César
4A noite do passado domingo foi do líder regional do PS nos últimos 14 anos, Carlos César, que garantiu novamente a maioria absoluta do partido no hemiciclo, ao mesmo tempo que os açorianos que foram às urnas lhe deram luz verde para o seu quarto mandato consecutivo na liderança do Governo dos Açores. O PS ganhou as eleições legislativas com 49,96%, quase 20 pontos percentuais à frente do principal partido da oposição, o PSD, que arrecadou 30,27% dos votos. Contas feitas, são 30 deputados para a facção rosa do parlamento, enquanto que o PSD contará com 18 elementos na sua representação parlamentar.
Ainda assim, César perdeu um mandato em relação aos 31 que detinha na anterior legislatura.
Pela primeira vez, o PS consegue a vitória em todas as ilhas, e em 18 dos 19 concelhos da região (a excepção foi as Lajes das Flores). A vitória em todas as ilhas apenas tinha acontecido há 32 anos, com Mota Amaral
No discurso da vitória, Carlos César não escondeu a felicidade, classificando o resultado como uma “inequívoca e expressiva vitória eleitoral”. “Sentimos com a reconfirmação eleitoral que hoje nos foi dada um sentimento de responsabilidade acrescido”, referiu, comprometendo-se a trabalhar para “fazer dos Açores a melhor terra possível para se viver”.
Carlos César destacou a vitória na ilha de São Jorge, talvez o principal “cavalo de batalha” do PS durante a campanha, e destacou que “vencer com maioria absoluta, com cerca de 20 pontos de vantagem sobre o segundo partido mais votado é, em qualquer região e qualquer país, uma grande vitória. Não há duas leituras”. O líder regional dos socialistas não poupou elogios ao seu homónimo nacional, frisando que esta eleição é também uma vitória de Sócrates. Por sua vez, de Lisboa, o actual primeiro-ministro não poupou elogios às qualidades políticas de César.
Relativamente à elevada abstenção Carlos César entende ser uma “opção legal dos cidadãos e uma responsabilidade negativa dos partidos políticos”. “Gostaríamos que a abstenção fosse menor, mas em democracia o que conta são as pessoas que votam no dia das eleições”, acrescentou.
O aumento da pluralidade política na Assembleia Regional é visto por César como uma vitória também do PS, já que mostrou as vantagens da nova lei eleitoral e, segundo o líder do PS vem reforçar a democracia regional”. “A oposição nos Açores deixou de ser só o PSD. Isso também é democracia”.


Derrota deixa antever novo ciclo político do PSD/Açores
4 E se o PS foi o vencedor na noite, o PSD teve a principal derrota política destas legislativas. Com resultados aquém das expectativas, os social-democratas perderam mandatos em relação às últimas legislativas.
O mal-estar da derrota no seio dos social-democratas agravou-se com a demissão do seu líder, Carlos Costa Neves. O antigo Ministro da Agricultura estava à frente dos destinos do PSD/Açores desde 2005, tarefa que assumiu após a demissão do anterior líder, Vítor Cruz.
Costa Neves entende ser tempo de “abrir um novo ciclo no PSD”, garantindo que não sai magoado com nada nem ninguém.
O resultado sentiu-se em Lisboa, com Manuela Ferreira Leite a enfrentar a sua primeira derrota política enquanto líder do PSD. Ferreira Leite mostrou-se desapontada com o resultado, e solidária com Costa Neves, cujas qualidades fez questão de destacar. Abstendo-se de fazer uma leitura nacional destes resultados, Ferreira Leite preferiu manifestar a sua preocupação quanto aos altos níveis de abstenção.
Com Costa Neves a abandonar a liderança dos social-democratas na região, as atenções voltam-se para Berta Cabral, presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada e uma das figuras de proa do PSD/Açores, como uma das escolhas mais prováveis para abraçar a liderança dos destinos do partido.

Seis forças políticas no Parlamento Açoriano
4 Resultado da nova Lei Eleitoral, a próxima legislatura ficará para a história devido à maior representatividade parlamentar de sempre. PS, PSD, CDS-PP, BE, CDU e PPM estarão representados nos lugares do hemiciclo. O Círculo Regional de Compensação permitiu a eleição do 18.º deputado para o PSD, e do quinto deputado para o CDS-PP. A CDU também conseguiu eleger Aníbal Pires, mas o grande vencedor no que toca ao Círculo de Compensação foi o Bloco de Esquerda, que garantiu dois deputados.
A nova Lei Eleitoral cumpriu assim o seu propósito de reforçar a pluralidade política na Assembleia Regional. Este reforço foi também possibilitado pela eleição no Corvo do deputado Paulo Estêvão, pelo Partido Popular Monárquico.
O CDS-PP foi outro dos grandes vencedores destas eleições: se até agora Artur Lima era “one man band” no Parlamento, na próxima legislatura conta com mais quatro deputados no grupo parlamentar popular. O CDS-PP foi a terceira força mais votada na região, alcançando 8,7% dos votos, e deputados eleitos pela Terceira, por São Miguel, por são Jorge, pelas Flores e pelo Círculo Regional de Compensação. "Se alguém tinha dúvidas de que o CDS-PP existia nos Açores por si próprio - e mesmo aqueles que lançaram dúvidas a esse respeito - têm aqui a resposta do povo açoriano", referiu Artur Lima.

Abstenção histórica
4 Estas eleições ficam também marcadas pela abstenção mais alta desde o início da autonomia açoriana. Mais de metade dos eleitores ficaram em casa no domingo, com a taxa de abstenção a atingir os 53,24%, contra os 44,77% de 2004.
A abstenção foi mais alta nos centros urbanos. São Miguel foi a ilha onde a taxa foi maior (56,84%), seguindo-se Santa Maria (54,72%) e a Terceira (53,93%). O Faial foi a quarta ilha com mais eleitores a ficar em casa (50,12%). A ilha com taxa de abstenção mais baixa foi o Corvo (19,26%).
De acordo com os dados da Comissão Nacional de Eleições, a tendência evolutiva da abstenção ao longo dos anos nos Açores vai no sentido ascendente, à semelhança do que, de resto, acontece em muitas democracias em todo o mundo. No entanto, a situação não deixa de ser preocupante, tendo mesmo sido apontada nesse sentido por várias das figuras da noite eleitoral, inclusive Carlos César.
A tendência geral do crescimento da abstenção intensificou-se após a década de 80, sendo que em Portugal revela valores algo superiores às médias europeias.
As causas são variadas: a fraca competitividade política – que, de resto, se verificou nestas eleições regionais – é apontada pelos teóricos que se debruçam sobre este assunto como uma das razões que leva os eleitores a não ir votar. Como tal, a antecipação feita à volta da vitória socialista poderá ter tido implicação directa na elevada taxa de abstenção. Também o descontentamento com o funcionamento do sistema político é uma das razões mais fortes que impulsionam a abstenção eleitoral. Existem também teóricos que relacionam de forma directa o declínio da militância sindical e partidária com a subida da abstenção. Em termos etários, a tendência verificada é que as pessoas mais jovens contribuem mais para o abstencionismo eleitoral que as mais velhas.
Das várias causas apontadas para a abstenção eleitoral, uma das que reúne mais consenso é o facto daquela se dever em grande parte à diminuição da capacidade dos partidos políticos de mobilizar os cidadãos em relação às suas propostas eleitorais.
PS e PSD dividem mandatos no Faial

A noite eleitoral não trouxe grandes surpresas à ilha azul. Apesar da vitória do PS (contrariamente a 2004, quando a coligação PSD/CDS-PP saiu vencedora), socialistas e social-democratas dividiram os mandatos na Assembleia Regional. Assim, Fernando Menezes e Hélder Silva pelo PS e Jorge Costa Pereira e Luís Garcia pelo PSD foram os escolhidos pelos eleitores faialenses para representar os seus interesses no hemiciclo açoriano durante os próximos quatro anos.
A abstenção, à semelhança do que se verificou em toda a região, atingiu valores nunca registados, fixando-se nos 50,12%.


Fernando Menezes na presidência da Assembleia Regional?
4 Esta é uma das questões que mais se evidenciam após as eleições do passado domingo. Após quatro anos enquanto presidente da ALRA, Fernando Menezes foi o primeiro candidato socialista pelo Faial, onde o PS arrecadou 41,36% dos votos, voltando a ganhar, após em 2004 ter perdido para a Coligação PSD/CDS-PP. Menezes e Hélder Silva foram assim os socialistas eleitos para representar o Faial na próxima legislatura, no entanto as atenções estão voltadas para que lugar ocupará o cabeça-de-lista no hemiciclo: se voltará às funções de deputado, ou se bisará na presidência da instituição. Sobre esta questão, Fernando Menezes parece mostrar-se receptivo a mais quatro anos de presidência, mas não adianta grandes comentários: “Para já fomos eleitos deputados pelo Faial e vamos cumprir o mandato que recebemos procurando honrar os compromissos eleitorais que assumimos. Quanto à presidência da Assembleia, essa decisão compete ao PS, ao seu Grupo Parlamentar e por fim ao resultado de uma eleição que se fará oportunamente no parlamento”, refere.
Em relação à vitória socialista, Menezes considera que “este resultado constitui uma vitória do PS, de Carlos César e dos candidatos pelo Faial que se envolveram numa campanha eleitoral muito intensa”. “Recorde-se que há quatro anos existiu uma coligação formada pelo PPD/PSD e CDS/PP que contou ainda com os votos do PPM. Nestas eleições, o PS tem no Faial mais votos que todos esses partidos somados o que é muito significativo”, refere.
Menezes não esconde a satisfação pela maioria absoluta na região, entendendo que esta “resulta do reconhecimento dos açorianos pelo trabalho feito pelos governos do PS nos últimos anos que foi verdadeiramente meritório para todas as ilhas incluindo a nossa”.
Relativamente à introdução de mais forças políticas na ALRA, Menezes entende que esta ficará assim com um “representação mais plural”, e que a introdução do círculo de compensação cumpriu assim as funções previstas. “Recordo que o PSD esteve contra esta nova lei eleitoral”, lembra.
Também a elevada abstenção preocupa o socialista, que entende que as causas para esta realidade “são muitas e devem ser ponderadas com serenidade”. “Os cidadãos são porém livres de fazerem o que entenderem e não me parece que sejam os políticos os principais responsáveis. De qualquer modo é bom lembrar que o cidadão circula pela estrada que foi feita a partir de uma decisão política, vai ao hospital que foi construído por decisão política, vai visitar um museu que foi desenvolvido por decisão política, etc., e depois diz que não quer saber da política, dos partidos e finalmente das eleições”, acrescenta.
Quanto às questões prioritárias a serem discutidas na ALRA, no que diz respeito ao Faial os socialistas destacam “o arranque das obras do porto a Horta, a ampliação da pista do aeroporto e o inicio da execução o campo de golfe”.

Objectivo parcialmente cumprido para o PSD/Faial
4
Quem o diz é Jorge Costa Pereira, cabeça-de-lista dos social-democratas pelo Faial, que irá assim ocupar um lugar na ALRA pela segunda vez.
Com 35,76% da intenção de voto no Faial, menos cerca de 14% em relação a 2004, ano em que ganhou as eleições na ilha, em coligação com o CDS-PP, o PSD conseguiu os mesmos dois mandatos de há quatro anos.
“O PSD candidatou-se a estas eleições no Faial com o objectivo de as vencer e de manter o número de deputados eleitos. Não conseguimos vencer em número de votos, mas mantivemos o número de deputados. Atingimos assim um dos nossos objectivos numa conjuntura que antevíamos difícil e que, nessa perspectiva, se concretizou”, refere.
Quanto aos níveis de abstenção, o social-democrata manifestou-se preocupado com a ultrapassagem da barreira dos 50%: “isto quer dizer que mais de metade dos eleitores açorianos desistiu de exercer o seu mais importante direito: o de escolher os seus representantes”. “Podemos apontar a razão circunstancial do desinteresse dos eleitores numa eleição cujo vencedor se dizia ser antecipado. Mas a verdade é que se acumulam sinais preocupantes de desinteresse e desencanto dos cidadãos com a política”, acrescentou, apontando como causas para esta situação o “folclore das campanhas eleitorais onde se promete tudo e depois não se cumpre, o exercício da política em circuito fechado longe dos eleitores e da realidade e o excessivo seguidismo partidário que sacrifica a defesa das pessoas aos interesses de quem está no poder”.
De acordo com Jorge Costa Pereira, os dois deputados laranja eleitos pelo Faial vão ocupar o seu lugar no hemiciclo, e prometem “dedicar particular atenção aos investimentos estruturantes e essenciais para o Faial, como a obra do porto ou a ampliação da pista do aeroporto”. “Aqui vamos fazer uma fiscalização muito próxima da acção do governo exigindo clarificação, calendarização e informação completa. Por exemplo, só se fala da 1ª fase da obra do porto e importa saber quais são as outras, o que consta de cada uma, qual a sua calendarização, qual a programação financeira que está prevista, etc”, refere. O PSD/Faial promete não desiludir na sua acção parlamentar: “a confiança que os eleitores em nós depositaram exige que no Parlamento façamos também eco das suas aspirações e dos seus problemas”, frisou.

CDU aquém dos objectivos
4 A CDU lutava pela eleição de um deputado pelo Faial, o que não aconteceu. Os 10,39% de intenção de voto no partido (menos 6,86% que em 2004) não foram suficientes para alcançar o objectivo.
Segundo Luís Bruno, cabeça-de-lista comunista, a não eleição do deputado é, mais que uma derrota para a CDU, uma perda para o Faial, pois representa menos uma voz na defesa dos interesses da ilha. “Quanto a propostas eleitorais novas ou propostas de reforço da defesa das nossas mais-valias tradicionais, não vi por parte das outras forças políticas nenhuma preocupar-se tanto como a CDU”, refere.
Quanto a factores para estes resultados eleitorais, Bruno aponta três: “o primeiro, da nossa responsabilidade – não ter conseguido esclarecer e mobilizar os eleitores em torno daquilo que defendemos para a nossa ilha e para os trabalhadores; o segundo, não termos conseguido que o eleitorado distinguisse que, embora fossem eleições diferentes – para a Assembleia Regional e não Autárquicas, a presença da CDU em ambos os órgãos beneficiaria, pela pluralidade resultante, a importância do Faial no contexto político dos Açores; o terceiro, a permanente campanha de desinformação, contra-informação e ocultação do trabalho da CDU desenvolvido a nível autárquico e partidário durante os últimos três anos e com particular incidência durante o período de pré e campanha eleitoral”. A abstenção também terá, segundo Luís Bruno, contribuído para a baixa de votação obtida pelo seu partido.
O comunista não encara este resultado como uma derrota pessoal: “estou triste, porque penso que com um resultado melhor, poderia ajudar mais o desenvolvimento da nossa ilha, dar uma alegria à minha família, a todos os amigos, companheiros e camaradas da CDU – não o consegui. Mas isso, em nada diminuiu quem sou e o que sinto pelo Faial e pelos faialenses. Como disse, no dia seguinte às eleições, continuo a ser a mesma pessoa. Eu não me demito!”, frisa.
Quanto à eleição do comunista Aníbal Pires, Bruno diz que “será um deputado combativo, tenaz, lutador, com a clarividência necessária para procurar as melhores soluções para a Região Autónoma dos Açores e para os que nela trabalham”. “No que respeita ao Faial, os seus interesses e ambições estão bem entregues no deputado da CDU”, acrescenta.


CDS-PP esperava melhor
4 Almérico Freitas, cabeça-de-lista pelo CDS-PP no Faial, confessa que esperava ter obtido melhores resultados na ilha, apesar de se mostrar satisfeito com os 4,58% de intenção de voto, e principalmente com o aumento da popularidade do seu partido em algumas freguesias, como o Capelo, a Praia do Norte, os Flamengos, etc.
“Estou com a minha consciência tranquila”, refere, acrescentando que sabia à partida a dificuldade da tarefa que abraçava ao concorrer a estas eleições.
A nível regional, os resultados dos populares foram extremamente positivos, como realça Almérico Freitas, destacando a eleição de um deputado pelo círculo regional de compensação. O popular faialense disse ao Tribuna que o partido espera poder fazer um uso rotativo desse deputado eleito, cabendo a militantes populares das várias ilhas ocupar rotativamente o quinto lugar no hemiciclo. Independentemente disso, Almérico Freitas garante que os interesses dos faialenses estão salvaguardados pelo grupo parlamentar do CDS-PP.
“Espero que os deputados eleitos pelo PS e pelo PSD façam agora o que nunca fizeram durante os quatro anos anteriores”, referiu Almérico Freitas à nossa reportagem.

BE satisfeito com resultados eleitorais
4
Entre 2004 e 2008 o Bloco de Esquerda triplicou a sua votação no Faial, passando de 0,84% a 2,78%. Para o bloquista Mário Moniz esta é uma clara vitória, “embora, em números absolutos, o resultado fique aquém das expectativas da simpatia que sentimos haver pelas bandeiras e causas levantadas pelo BE/Açores”, refere.
Os resultados incentivam o BE/Faial a continuar a luta.
A abstenção foi sempre uma preocupação do BE, que se verificou ser fundamentada. “Compreende-se que as pessoas estejam desmotivadas com as promessas falsas, fartas de ser enganadas com discursos inflamados que não passam de retórica demagógica, que cheguem à conclusão que os, ditos, partidos do poder, afinal, sejam iguais… cada vez mais iguais”, explica, entendendo que esta é, no entanto, mais uma razão para cada um “participar na discussão política das decisões e votar”.
Em relação à eleição de dois deputados na região, Mário Moniz considera-a uma “grande vitória”. “ Tínhamos a noção de que estava assegurada a eleição da Dr.ª. Zuraida Soares, mas foi com enorme alegria que vimos o aumento significativo da nossa votação, permitindo a eleição do segundo candidato”, referiu.
Projecto da nova igreja de Pedro Miguel já está na Câmara Municipal da Horta


LANÇAR CONCURSO NO INÍCIO DO ANO É O OBJECTIVO

O projecto arquitectónico da nova igreja da freguesia de Pedro Miguel já foi entregue para apreciação na Câmara Municipal da Horta. A entrega do dossier decorreu no passado dia 16, e contou com a presença dos arquitectos Martins Naia e João Paredes – este último responsável pelo projecto -, bem como do Ouvidor da Horta, padre Marco Luciano, do pároco de Pedro Miguel, Tomás de Brito e ainda de representantes da Comissão dos Assuntos Económicos da Paróquia de Nossa Senhora da Ajuda.
A recepção esteve a cargo do presidente da edilidade, João Castro, e do vereador com o pelouro das obras, Orlando Rosa.
O arquitecto Martins Naia pediu celeridade por parte da autarquia na análise do projecto, esperando-se que a obra possa ser lançada a concurso no início do próximo ano. João Castro, por sua vez, garantiu um esforço da autarquia no sentido de ir ao encontro desse objectivo.
Orçada em cerca de um milhão e quinhentos mil euros, de acordo com o padre Marco Luciano, a obra da nova igreja de Pedro Miguel será comparticipada pelo Governo Regional em 75%. Relativamente aos encargos financeiros da responsabilidade da paróquia, o Ouvidor expressou a sua convicção de que esta será capaz de “fazer face aos compromissos”. De facto, várias têm sido já as iniciativas organizadas pela Comissão dos Assuntos Económicos daquela paróquia no sentido de reunir a verba necessária para a concretização deste projecto.
Relativamente à reconstrução das igrejas do Faial, o projecto da igreja de Pedro Miguel, que será uma construção inteiramente de raiz, foi o último a ser concluído, não significando no entanto que seja a obra seja a última a ser concretizada, como frisou o arquitecto responsável. João Paredes destacou o envolvimento da comunidade pêro-micaelense com o projecto da nova igreja, e fez uma breve apresentação do projecto aos autarcas presentes. Uma área de culto mais reduzida (180 lugares), de acordo com as necessidades, uma via de acesso interior paralela à Estrada Regional, e o facto do projecto não dispor de áreas para outras actividades pastorais, como por exemplo salas de catequese, por não ser necessário visto a paróquia já dispor de infra-estruturas nesse sentido, foram alguns dos aspectos destacados pelo arquitecto. Paredes salientou também a torre da nova igreja, que pretende ser uma espécie de “homenagem” à antiga, notável marco arquitectónico daquela construção, que ao longo dos anos se tornou um verdadeiro ex-libris da freguesia de Pedro Miguel.